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Palavra do Provincial
A MISSÃO DA VIDA COMUNITÁRIA
Há de se tratar em capítulo da comunidade local
Caros irmãos, estamos acostumados a dizer que o tripé que sustenta a Vida Religiosa Consagrada sustenta-se na oração pessoal, na vida comunitária e na missão apostólica; a partir daí traçamos o nosso plano de ação para a Província e para as comunidades locais. O ponto central da reflexão que apresento neste texto é o seguinte: No contexto atual da VRC, qual é a missão da Vida Comunitária?

Seguem alguns pontos de reflexão que deveriam ser refletidos nos ‘Capítulos Locais’ de nossas comunidades religiosas, capítulos estes que não deveriam ser somente em função da organização dos afazeres da comunidade, mas também para momentos de estudo, reflexão e formações. (CCRR 126)
1) A missão da ‘Vida Comunitária’ é enviar em nome de Jesus os religiosos ao apostolado, mas antes, promover a comunhão fraterna, a partilha de vida e a vivência da fé entre os membros da mesma comunidade religiosa;
2) Amedeo Cencini,¹ em seu livro ‘Integração comunitária do bem e do mal’, nos faz uma provocação muito perspicaz; ele questiona o seguinte: “Como se pode chamar de comunidade religiosa um grupo de pessoas que não compartilham aquilo que tem de mais precioso: a própria fé e o dom recebido do alto? Qual capacidade de testemunho e de atração vocacional poderá afinal, ter uma comunidade na qual cada um cuida dos próprios afazeres e tende a buscar sua perfeição pessoal? e acrescenta: qual é o nível de comunicação em nossas comunidades locais?”;
3) Não sei se essa provocação serviria para a realidade de nossa Vice-Província do Brasil, para as nossas comunidades. No entanto, é bom que reflitamos em Capítulo Local, entendendo que toda comunidade religiosa realiza ou se esforça para que haja o seu Capítulo Local e de preferência mensalmente, conforme nossas CCRR 36 b;126 );
4) O padre francês Teilhard de Chardin² escreve em seu livro ‘O Meio Divino’: “Não somos seres humanos que tem uma experiência espiritual. Somos seres espirituais que tem uma experiência humana, ora depois de contemplar a face de Deus, você descobre a mesma face em todas as pessoas que encontra, pois a espiritualidade cristã é uma espiritualidade de redenção.” Se concordamos com essa proposição do autor, podemos afirmar que somos obra do Espírito Santo, portanto somos criados humanos, mas com uma vontade e essência divina, embora limitados e pecadores, e, mesmo assim, me atrevo a dizer que a verdadeira liberdade humana é encontrada em fazer a vontade de Deus; (Lc1,26-38) como podemos trazer tudo isso para dentro da comunidade onde vivemos?
5) Baseado na premissa de Teilhard de Chardin, entendo que a espiritualidade está dentro de nós, mas precisa ser despertada, ela está no coração (realidade simbólica), onde se encontra o território do amor, das intuições, da profundidade, da solidão mais profunda que nos permite pensar, refletir, compadecer e perdoar. Nascemos do espírito (Jo 3) e nosso corpo é o espírito em um estado de expressão, de encarnação, de relacionamento e comunhão, segundo Teilhard de Chardin. Isso nos faz concluir que na comunidade religiosa a conexão entre nós, mesmo sem vínculos sanguíneos, é uma realidade poderosa e por si só nos faz entender e sentir que precisamos uns dos outros.
Por fim, uma outra reflexão que poderia ser bem tratada em Capítulo Local é o cultivo da espiritualidade das pequenas coisas, como modo de viver a nossa fé no cotidiano. Mais do que nos grandes feitos, são nos pequenos que vamos alimentando-nos da espiritualidade e descobrindo a força da vida e o sentido de viver. Vida esta que se mostra integradora se for sustentada na ordem das pequenas coisas, gestos e sentimentos; pois é destas que chegamos às maiores, mais densas e, às vezes, pontuais em nossas vidas. Uma pessoa que busca nutrir-se desta espiritualidade no cotidiano procura exercitar-se na fé diante de cada acontecimento, pois o vê como uma oportunidade que a Vida e Deus nos dão. Seja de alegria ou de dor; de conquista ou de perda. E não sentirá mais necessidade de perguntar, por exemplo, diante das perdas “por que eu, Senhor?”, mas passa a um outro estágio da vida: “para que isso em minha vida, Senhor?” Nisso tudo, Maria, Mãe de Jesus e nossa tem muito a nos ensinar em sua capacidade de discernimento e acolhimento.
1. Amedeo Cencini sacerdote e religioso canossiano, autor de muitos livros na área da formação na Vida Religiosa Consagrada, inclusive o citado no texto acima.
2. Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955) foi um padre jesuíta, paleontólogo e filósofo francês que revolucionou o pensamento ao integrar evolução científica e teologia cristã. Autor do livro: O Meio Divino: Foca na espiritualidade da ação e da vida cotidiana
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